Tradução: George MacDonald #33

Olá pessoal!

Este excerto é muito interessante porque afirma que, se Cristo tivesse evitado o último ponto de toda a tortura e sofrimento pelo qual passou, Ele não teria passado por algo que todos nós temos que passar de qualquer maneira: a morte. E, caso isso tivesse ocorrido, chamaríamos por nosso Capitão que, tendo sido também nosso irmão humano, não poderia nos responder porque evitara o ponto fatal da vida que é a nossa finitude.

Para facilitar a compreensão do trecho sem essa explicação minha acima, inseri apenas três palavras entre colchetes sem prejuízo de sentido, ou necessidade de adequação da tradução. Como é retirado de um texto mais longo, pode haver interpretações erradas do segmento e julguei pertinente fazê-lo. Mas podem ignorar minha intromissão no texto de George MacDonald sem problemas caso o desejem.

George Mac Donald (1860)
George Mac Donald (1860)

33 – O mesmo

“Sem esta última de todas as provações, as tentações de nosso Mestre não teriam sido tão cheias quanto a taça humana poderia carregar; teria havido uma região através da qual teríamos que passar onde poderíamos chamar alto ao nosso Capitão-Irmão e não haveria voz ou algo ouvido [em resposta]: [pois] Ele desviara do ponto fatal!”

(George MacDonald – Unspoken Sermons – The Eloi)

Superinterpretação

Olá pessoal!

Desta vez a “postagem grande da semana” (que é como apelidei aquelas que não versam sobre minhas aventuras tradutórias com a antologia de excertos do George MacDonald) será ligeiramente curta. Isso se dá porque o assunto é relevante, mas pretendo explorá-lo com maior afinco na resenha de um poema de Álvares de Azevedo que aparecerá aqui em algum momento no futuro.

Vemos muito frequentemente uma explosão de opiniões sem qualquer fundamentação acerca de obras de arte em geral e, claro, de obras de arte literárias em particular. Com o aumento do uso da internet, isso ficou ainda mais comum e corriqueiro. O “gostei” e “não gostei” são as “críticas” literárias mais comuns e embasadas somente no gosto da pessoa. Esta, claro, é uma maneira incorreta de se avaliar uma obra e de se fazer crítica literária.

Contudo, existe um outro erro que pode passar despercebido por muitos por ser o extremo oposto do anterior e muito mais comum na Academia. É o uso de teorias prévias para explicar o que uma obra quer dizer. E aqui vale o alerta de que conheço o uso acadêmico do termo “superinterpretação“, mas não estou me fiando dele, mas apenas no sentido de um uso exagerado de uma interpretação sobre qualquer coisa como deverá ficar claro mais adiante.

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Tradução: George MacDonald #32

Olá pessoal!

Este excerto faz parte do mesmo sermão não-proferido do trecho anterior, mas toca em seu título de modo tão próprio que C. S. Lewis intitulou esse trecho com o começo original do Salmo 22 que falei anteriormente. É uma bela descrição da fé que permaneceu mesmo sob torturas incomensuráveis na pessoa de Jesus e na ausência de sinais miraculosos para confortá-lO naquele momento de extrema dor física e de angústia na alma. Por alguma razão, lembrei do silêncio do qual fala constantemente o padre Rodrigues no romance mais famoso do japonês Shusaku Endo.

Nos elementos técnicos da tradução, tive somente problemas quando ao verbo “to declare” na última parte e que terminei por traduzir como “clamar” para que fizesse sentido com o objeto usado por George MacDonald (“for God”). O verbo em inglês tem um sentido de “proclamar” e “anunciar“, mas também de “afirmar“. Como “proclamar” e o possível “declamar” têm como elemento principal o “clamar”, julguei que seria uma escolha adequada, mesmo com ambos os verbos soando um pouco diferentes em português. “Clamar” tem um quê de pedido inerente ao “meu Deus” de Cristo, mas também de anúncio, declaração (em sentido de “declaração de amor” mesmo por estar carregada de paixão), grito, proclamação e declamação.

George MacDonald (1870)
George MacDonald (1870)

32 – Eli, Eli

“Ele não podia ver, não podia senti-lO por perto; e ainda assim é ‘meu Deus’ que Ele grita. Desse modo, a Vontade de Jesus, no exato momento em que Sua fé parece prestes a sucumbir, é finalmente triunfante. Não há sentimento para fundamentá-la, nenhuma santa visão para absorvê-la. Ela permanece nua em Sua alma e torturada, enquanto Ele permanecia em pé, nu e chicoteado diante de Pilatos. Pura, simples e rodeada por fogo, ela clama por Deus”.

(George MacDonald – Unspoken Sermons – The Eloi)

Tradução: George MacDonald #31

Olá pessoal!

O título que C. S. Lewis dá a este excerto é adequadamente “A Paixão” por fazer referência direta aos sofrimentos de Jesus ao longo de todo o processo que culminou em sua crucificação e morte. Essa seleção faz parte de um sermão que George MacDonald intitulou de “The Eloi” que, como veremos no trecho de número 32, faz alusão direta às palavras “Eli Eli lama sabactani” que nada mais é que o início do primeiro versículo do Salmo 22: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me, tão longe dos meus gritos de angústia?”. Esse cântico é carregado de dor: não é à toa que o Cristo lembrou-se dele enquanto desfalecia na cruz.

Sobre o assunto tratado aqui, George MacDonald busca clarear duas coisas: os sofrimentos de Cristo não foram menores que o de qualquer ser humano a ser crucificado por Ele ser Deus; e que, pelo contrário, Jesus sofreu mais do que qualquer humano jamais sofrerá. Sobre este último ponto, o autor justifica que isso se dá porque sendo o Cristo gentil, amável, verdadeiro, justo e correto como ninguém, ele pôde sentir mais duramente a força da morte sobre a vida e a angústia da tortura daquela sobre a harmonia estabelecida desde o princípio pelo Criador.

No que se refere a questões mais técnicas, tive que buscar algumas palavras mais adequadas para traduzir alguns elementos. Mas o único que realmente merece menção é o provavelmente inadequado “gentil” que adotei para traduzir “delicate“. O sentido da palavra aproxima-se mais de nosso “delicado” com uma conotação de fragilidade, mas também aparece significando algo fino e requintado (sem afetação exagerada). Busquei como passar essa fineza (algo fino e pouco espesso também pode ser qualificado de “delicate”) para algum ser humano e o adjetivo que me ocorreu foi esse porque a cortesia do homem gentil envolve certa servidão e passividade diante do sofrimento imposto por alguém superior também. Podem encontrar alguns elementos sobre isso quando falo de amor cortês na resenha que fiz do poema de Camões neste link aqui. Talvez não tenha sido a adoção mais adequada, mas foi a que me pareceu melhor para evitar más interpretações caso optasse por “frágil” ou “delicado”.

George MacDonald (1862)
George MacDonald (1862)

31 – A paixão

“É com o mais sagrado temor que deveríamos nos aproximar do fato terrível dos sofrimentos de Nosso Senhor. Não deixe que ninguém pense que foram menos porque Ele era mais. Quanto mais gentil a natureza, mais viva para tudo que é amável e verdadeiro, justo e correto, mais se sente o antagonismo da dor, a intrusão da morte sobre a vida; o mais angustiante é aquela ferida da harmonia de coisas cujo som é tortura.”

(George MacDonald – Unspoken Sermons – The Eloi)

Tradução: George MacDonald #30

Olá pessoal!

Esse trecho diminuto do sermão não proferido sobre as tentações de Cristo no deserto é de grande importância para mim e para todo aquele que, como Moisés diante do arbusto em chamas, quer saber quem é Deus. George MacDonald alerta para uma coisa que um personagem existente em uma de minhas histórias diz a certa altura: “Deus é hoje apenas uma interjeição!” Conhecer a Deus e saber o que Ele é vai além de simplesmente repetir o seu nome ou ter ouvido falar dele. Como , urge conhecê-lO face a face e não apenas de ouvir falar.

Quanto aos aspectos técnicos, não tive qualquer dificuldade. O texto é claro e foi possível usar termos e expressões de sentido adequado. Apenas gostaria de frisar os três sutis destaques feitos abaixo retirando o itálico da citação: “Tu és Deus”; “Tu” e o “Deus” que encerra o excerto.

George MacDonald (1860)
George MacDonald (1860)

30 – O conhecimento de Deus

“Dizer Tu és Deus sem saber o que o Tu significa – qual a utilidade disso? Deus é um nome apenas, a não ser que conheçamos Deus.

(George MacDonald – Unspoken Sermons – The temptation in the wilderness)