Primeiro Domingo da Quaresma (A)

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Gravura de Gustave Doré para “Paraíso Perdido” de John Milton.

“Enquanto eu mantinha escondidos os meus pecados, o meu corpo definhava de tanto gemer.” (Salmo 32.3)

Com a quarta-feira de cinzas começamos uma nova estação do ano litúrgico: a quaresma. Neste primeiro domingo da quaresma já fica bastante claro o tom dessa época e o que ela relembra, preparando-nos para a Semana Santa e a Páscoa.

E foram ótimas leituras para refletir ao longo da semana, devo dizer. Duas das minhas histórias favoritas da Bíblia foram relembradas. Uma delas é a história da queda.

Eva e Adão consumiram o fruto que não poderiam consumir e acabaram por levar a pecabilidade e a morte a todos os seres humanos a partir daí. Há muita coisa a se discutir a respeito dessa história (mais do que possam imaginar, provavelmente), mas uma coisa sempre me chama a atenção nela: o orgulho.

A serpente tem sucesso em convencer Eva a comer o fruto ao dizer duas coisas: que não morreriam por comer o fruto e que seriam como Deus. Nessa pequena fala, o acusador afirma que Deus seria mentiroso (pois tinha dito ao primeiro casal que não morreriam) e que seria egoísta (pois não queria que fossem como ele). Convenceu-a levando-a ao orgulho.

Muitos teólogos ao longo da história marcam o orgulho como sendo o principal pecado e a base de todos os demais. E isso é verdadeiro não apenas na história da queda de Satanás, mas também na própria queda do homem. Adão e Eva julgaram-se autossuficientes e acreditavam que não precisavam de Deus e poderiam muito bem decidir absolutamente tudo que quisessem fazer.

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“Adão e Eva diante de Deus após seu pecado”. Mosaico da Catedral Monreale.

Pecado é tudo aquilo que nos afasta de Deus e o orgulho certamente é uma das principais razões para isso.

É o orgulho inclusive que nos impede de confessar as faltas que cometemos a Deus (e até a outras pessoas). O salmista nos lembra esconder os pecados nos leva a um maior distanciamento de Deus e a um maior sofrimento: apenas pela confissão que abrimos caminho para o perdão. E é o perdão que nos liberta e nos alegra, mesmo que tenhamos, claro, que lidar com as consequências de nosso pecado.

Paulo então, falando a respeito do mesmo tema, diz que a Lei serviu para trazer a possibilidade de tornar o pecado manifesto. Ou seja, através da Lei podemos conhecer a nossa condição de pecadores. Mas ele pontua que, como através de Adão o pecado entrou no mundo, através de Cristo a graça transbordou no mundo. Essencialmente é Deus mostrando sua capacidade de transformar mal em bem.

A Lei nos torna conscientes do pecado e Cristo nos torna conscientes da salvação. Seguindo a lógica das coisas descritas acima, para que tenhamos acesso a Cristo é preciso que reconheçamos nosso pecado e peçamos perdão por eles a Deus, pois somente assim deixamos nosso orgulho de lado e, em humildade, nos rendemos a Ele como Deus e Senhor.

A passagem do Evangelho de Mateus lida para o dia de hoje é minha outra história favorita da Bíblia e tem íntima relação com essas questões todas, pois narra os quarenta dias de jejum de Cristo no deserto e as tentações que sofreu durante o período.

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“Cristo no deserto”. Pintura de Ivan Nikolaevich Kramskoi.

Tendo sido guiado pelo Espírito Santo ao deserto, Jesus passou por três tentações específicas. Na primeira, Cristo afirma ao adversário que não vivemos apenas de comida, mas da palavra de Deus. Na segunda, que não podemos testar o poder de Deus para ver se Ele é tudo aquilo que afirma ser. Na terceira, temos que adorar a Deus e prestar culto somente a Ele.

E por que essa passagem é interessante dentro do contexto da queda? Porque comprova aquilo de que Paulo fala em sua carta aos Romanos: Cristo trouxe a solução ao problema do pecado e morte que foram trazidos pelo primeiro casal humano e, para mostrar isso, não sofreu a Queda.

O adversário de Cristo é exatamente o mesmo de Eva e Adão. E as propostas são exatamente as mesmas. Embora apresentadas de forma diferente, a astuta serpente afirma que: podem comer aquilo que quiserem desde que estejam com vontade; que podem desafiar as ordenanças de Deus sem qualquer problema; e que não precisam mais adorar a Deus já que seriam iguais a Ele.

Nossos pais erraram e caíram em cada uma dessas coisas pelo seu orgulho conforme vimos anteriormente. Orgulho este que persiste em nossa humanidade até os dias de hoje e que pode ser facilmente percebido por qualquer pessoa mais atenta (tanto em outros como em nós mesmos).

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“Adão e Eva”. Ilustração de Sir George Hayter para “Paraíso Perdido” de John Milton.

Cristo, por outro lado, sofreu a mesma tentação que todo ser humano (pois era homem e não apenas Deus), mas não sofreu a queda. E isso porque manteve a sua humildade: ao alimentar-se daquilo que Deus lhe ofereceria no momento certo (anjos Lhe servem comida depois do período de jejum); ao manter-se submisso ao comando de Deus; e ao adorar somente a Deus e nunca a si mesmo.

Que essa pequena reflexão sobre o pecado e o orgulho possa servir de guia ao longo da quaresma toda, mas também a perspectiva de redenção e salvação. Basta reconhecer o próprio pecado e pedir perdão por ele. Enquanto é dia, há esperança.

Até a próxima postagem!

Leituras:
Gênesis 2.15-17; 3.1-7
Salmo 32
Romanos 5.12-19
Mateus 4.1-11

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