Quarto Domingo da Quaresma (A)

“Cristo e o mendigo. A cura do homem nascido cego.” Pintura de A. N. Mironov.

“Enquanto é dia, precisamos realizar a obra daquele que me enviou.” (João.9.4a)

As leituras de hoje seguem a reflexão da semana passada, mas vão além ao indicar detalhes que valem a pena retomar aqui.

Samuel, certa vez, recebeu a ordem do Senhor para que fosse ungir um dos filhos de Jessé como rei. A princípio, o homem de Deus teme por sua vida, mas termina por ser convencido e segue seu caminho até o lugar designado. Ao estar diante do primeiro filho de Jessé, Samuel acredita que ele será ungido rei, mas Deus alerta e lhe diz que Ele vê o coração e não as aparências como nós, humanos, fazemos. Sem ignorar tais orientações, Samuel unge Davi como lhe foi pedido e volta para o seu lugar.

Essa passagem é interessante, porque nos revela não apenas a disposição de Samuel em ouvir a voz de Deus e segui-la, mas também que Ele é capaz de nos conhecer melhor do qe nós mesmos. Talvez vejamos apenas as nossas próprias aparências inclusive, mas o Senhor vê nosso mais profundo interior.

“Cura do homem nascido cego”. Iluminura presente no Códice Egberti.

Mas esse prazer em servir não traz necessariamente uma tranquilidade serena e absoluta diante da obra a realizar. Afinal, Samuel temia por sua vida. Porém, o salmista nos lembra que Ele nos protegerá ainda que estejamos em meio a um vale de sombras e de morte; e é essa esperança que nos dá forças para seguir em frente cumprindo a missão que Ele nos solicitar.

Paulo, seguindo uma linha de raciocínio bastante similar, lembra ao povo de Éfeso que, uma vez em Cristo, saímos das trevas e alcançamos a luz. E, sendo filhos da Luz, temos que fazer aquilo que é agradável a Deus e manifestar a bondade, a justiça e a verdade para todo o mundo. E isso implica em risco, porque quem está na luz, se torna visível; apenas se oculta aquele que ainda está em trevas. Fazer a obra de Deus e segui-lO é manifestar-se às outras pessoas e não se esconder por receio de fracassar, ou de não ser protegido pelo Senhor. Quem vive na luz, não deve recear ser visto pelas outras pessoas, pois é justamente isso que devemos querer. Mas, é claro, devemos ser vistos por boas razões, como as que o apóstolo frisa muito bem ao longo do trecho de sua carta cuja leitura estava prevista para este domingo.

E o que isso tudo tem a ver com a passagem do cego de nascença curado por Jesus e narrado pelo apóstolo João?

Tudo, eu diria.

Jesus deixa muito claro logo no início do relato que ele era cego de nascença para que a obra de Deus se manifestasse em sua vida. E, enquanto for dia, a obra deve ser feita. O que transformava aquele momento em um evento diurno era a presença material da própria Luz do Mundo, mas, como vimos durante o advento, também devemos refletir essa mesma luz, enquanto estivermos aqui, vivos e peregrinos, ainda é dia e hora de tornar manifesta a obra de Deus para todos os homens.

“Cura do cego de nascença” de Wilhelm Steinhausen.

O Verbo ordena então ao homem que vá lavar seus olhos no tanque de Siloé. Sem pestanejar ou discutir, ele o faz e passa a enxergar pela primeira vez em sua vida: a obra de Deus acaba de manifestar-se em sua vida de forma milagrosa!

Contudo, como Samuel, o salmista e Paulo sabiam, fazer a obra de Deus às claras incomoda aqueles que ainda estão em trevas e colocam em risco aqueles que seguem as orientações do Senhor. Mesmo diante de tal evidência, os judeus escolhem não acreditar de maneira alguma.

Aqueles que não veem a obra de Deus não podem ser culpados de pecado, mas aquele que vê e não acredita é responsável pela sua escolha. Cristo veio para julgar o mundo e, sendo Luz, pode tanto abrir os olhos daqueles que querem ver (mas nunca viram) como cegar aqueles que, vendo, escolhem não ver.

Nosso papel é levar a luz do mundo às pessoas, mesmo com o risco de sofrermos ao longo do caminho. Afinal de contas, Nosso Senhor estará conosco e, de uma maneira ou de outra, permitirá que alguns se aproximem dEle. Não podemos desistir por receio de perdermos nossa própria vida, porque perdê-la é, no fim, salvá-la.

Até a próxima postagem!

Leituras:
I Samuel 16.1-13
Salmo 23
Efésios 5.8-14
João 9.1-41

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2 comentários sobre “Quarto Domingo da Quaresma (A)

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