Quarto Domingo Após o Pentecostes (A)

“O teste da fé de Abraão”. Gravura de Gustave Doré.

“Mas o Anjo do Senhor o chamou do céu: ‘Abraão! Abraão!’. ‘Eis-me aqui’, respondeu ele.” (Gênesis 22.11)

As leituras dessa semana começam com um trecho muito conhecido: o sacrifício de Isaque por Abraão no livro de Gênesis. Segundo o relato bíblico, Deus pediu a Abraão que sacrificasse seu único filho, mas Ele no último instante impede o golpe fatal e provê um animal para que o sacrifício seja feito sem a morte de Isaque.

Essa passagem, embora chocante, nos revela muitas verdades acerca de nosso compromisso e relação com Deus. Uma delas é um prolongamento direto da reflexão do domingo anterior: tudo o que nós temos aqui na Terra nos foi dado por Deus. Não apenas posses, autoridade e poder, mas também as pessoas com as quais convivemos, nossos filhos, nossos pais…

Quando Deus fez o mundo e colocou Adão e Eva como senhores da criação, Ele deu tudo que existe para que nós e nossos pais cuidássemos de cada coisa que há ao nosso redor.

O que isso quer dizer? Que não podemos amar mais o presente que Aquele que nos presenteou.

Por exemplo, se temos um “amigo” e apenas gostamos dele porque nos dá presentes que adoramos com bastante frequência, não amamos nosso amigo, mas sim os presentes que ele nos dá. Não temos prazer na companhia dele, mas o usamos para obter coisas que nos interessam.

Muitos fazem uso de Deus desta maneira criando ídolos mais amáveis que Ele.

“Abraão e Isaque antes do sacrifício.” Pintura de Jan Victors.

Essa provação de Abraão nos mostra justamente alguns problemas: estamos dispostos a entregar a Ele todas as coisas que amamos? E tomaremos conta daquilo que ele nos emprestou para cuidarmos, seja o que for? Devolveremos tudo a Ele quando o Senhor nos pedir já que tudo é dEle e nada nosso?

Abraão se dispôs a fazer isso e quanto a nós? Confiaremos em Deus?

O salmista demonstra exatamente essa confiança nEle: mesmo sofrendo intensa angústia interior e zombaria por parte de seus inimigos, ainda assim não se desespera. Ele tem motivos pelos quais agradecer: sua salvação é um deles e a própria confiança em Deus que não esmorece é outro.

Paulo, em sua carta aos Romanos, coloca o mesmo problema, mas sob outra perspectiva. Diz ele que não podemos ser escravos do pecado. Temos que oferecer nossos próprios corpos a Deus. Não porque nosso corpo seria um mero objeto profano qualquer, mas exatamente pelo contrário: nosso corpo é sagrado e é a nossa vida pulsando e presente no mundo. Uma entrega como a de Abraão implica em entregarmos nosso próprio eu para servi-lO.

Temos que deixar de ser escravos do pecado e passarmos a ser servos de Deus. Assim, evitamos o salário que receberíamos do pecado (a morte) e ganhamos um presente muito mais valoroso (a vida eterna).

Vitral na Igreja da Madalena de Troyes.

Mateus, em seu Evangelho, repete as palavras de Cristo que nos dizem que somos emissários de Nosso Senhor e, portanto, somos enviados do próprio Deus. Aqueles que cuidam de nós, cuidam de Cristo e, consequentemente, cuidam também de Deus. É a mesma estrutura hierárquica que Paulo descreve, mas em outro ponto de vista: se somos servos de Deus, quando as pessoas nos veem em missão, veem a Deus através de nós e, quando nos recebem, recebem também a Deus.

A questão é: estamos realmente servindo a Deus? Estamos imitando nosso mestre para que Ele seja conhecido na Terra através de nós? Só podemos fazê-lo com perfeição quando entregamos completamente tudo que temos a Ele, quando entregamos nossos próprios corpos a Ele, quando nos tornamos servos fiéis e que confiam em seu Senhor.

Quem disse que seria fácil ser cristão? A humildade é difícil de ser adquirida, mas é necessária nessa caminhada.

Até a próxima postagem!

Leituras:
Gênesis 22.1-14
Salmo 13
Romanos 6.12-23
Mateus 10.40-42

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