Sexto Domingo Após o Pentecostes (A)

“Esaú e o ensopado de lentilhas”. Pintura de Jan Victors.

“Dispus o meu coração para cumprir os teus decretos até o fim.” (Salmo 119.112)

Vimos no domingo anterior que temos uma escolha diante de nós: imitar a Cristo em Sua humildade, ou a Satanás em seu orgulho. As leituras de hoje seguem a mesma linha de raciocínio, aprofundando-a um pouco mais e retomando alguns elementos tratados nas semanas anteriores também.

O texto selecionado do pentateuco narra uma das várias histórias de Jacó e Rebeca. Esta era estéril e, por bênção divina, engravidou de duas crianças: Esaú e Jacó. Quando eram mais velhos, Esaú saíra para caçar e, faminto, trocou sua primogenitura com Jacó por um prato de lentilhas.

Geralmente as pessoas enfatizam essa narrativa na pessoa de Jacó e como ele teve sucesso em obter as bênçãos de seu pai Isaque algum tempo depois. Mas o que nos interessa aqui é a facilidade com que Esaú troca um presente dado por Deus a ele por algo corriqueiro e passageiro como um prato de comida para saciar sua fome. Guardem essa imagem porque a retomarei em breve ao chegarmos aos textos do novo testamento.

Os dois salmos indicados para hoje falam sobre a importância da Palavra para nos indicar o caminho rumo à Verdade e à Justiça e, claro, da necessidade de confiarmos em Deus mesmo em meio a grandes sofrimentos.

“Esaú vendendo sua primogenitura”. Pintura de Hendrick ter Brugghen.

No salmo 119, fica bem claro que estamos em perigo constante e que, ainda assim, os testemunhos que ouvimos a respeito das bênçãos de Deus nos alegram; e já falamos por aqui da importância que existe não apenas em agradecermos a Ele em privado, mas em tornar público tudo que Ele tem feito por nós (não por orgulho pessoal, mas para que a Luz dEle brilhe mais intensamente). O salmista ainda declara a importância de empregarmos nosso coração para cumprir Sua lei até o fim.

Já no salmo 25, vemos algo bastante similar, mas com um tom suplicante mais intenso. Além de pedir por proteção, por luz em seu caminho, o salmista clama por perdão de seus pecados, por libertação que apenas Deus pode fornecer. Assim, este salmo acaba complementando o outro de certa maneira: um suplica e o outro agradece. E ambas deveriam ser as pedras de toque de boa parte de nossas orações elevadas ao Pai.

Quase como que em resposta ao salmista anterior, Paulo diz em sua carta aos romanos que Cristo nos liberta dos grilhões da lei do pecado e, consequentemente, da morte. Aqueles que aceitam essa salvação propiciada pelo Messias deixam de ser escravos do pecado e se submetem à lei de Deus (que é exatamente o que ambos os salmistas dizem desejar fazer).

Diz ele ainda que aqueles que vivem segundo a carne voltam-se apenas para aquilo que a carne deseja, mas que aquele que vive para o Espírito tem a mente voltada para aquilo que o Espírito deseja. Isso significa que, em nosso orgulho, apenas pensamos em nossos próprios desejos egoístas de superioridade, mas que, em nossa humildade, pensamos nos desejos de Deus para nós e para as outras pessoas.

Gravura de Alexandre Bida.

O interessante é que, ao contrário de alguns hereges que viviam durante o primeiro século da Era Cristã, nossa alma não é a única coisa que importa. Assim como aconteceu com Cristo, não somos separados dos nossos corpos quando aceitamos a Palavra e nos dispomos a servi-lA: não é porque vivemos em pecado que nosso corpo é descartável. Cristo faz algo melhor do que simplesmente jogar fora o que está impuro: ele nos purifica completamente transformando nossos corpos assim como o dEle foi transformado na ressurreição.

E agora podemos voltar a Esaú.

Ele recebeu um presente de Deus: a primogenitura. Ele seria o herdeiro de toda aquela promessa feita a seu avô Abraão e a seu pai Isaque: um grande povo viria dele e, desse povo, viria o salvador de nossas almas, aquele que quebraria os grilhões do pecado e da morte.

Se Esaú estivesse vivendo segundo o Espírito, tudo que ele fizesse seria feito visando atender a esse desejo de Deus para a sua vida. Ele ouviria com atenção as palavras de seu pai, de sua mãe e faria de tudo para que o desejo de seu Criador se realizasse através de sua vida. Seu corpo seria transformado de alguma maneira e isso seria visto por outras pessoas.

O erro de Esaú não era ser caçador, ter nascido antes, ou ter sido enganado por Jacó como em geral ouvimos por aí em sermões sobre essa passagem. Seu erro foi não dar importância à Palavra de Deus e não se preocupar em cumpri-lA em sua própria vida.

E é exatamente dessa possibilidade que Cristo fala durante a passagem do Evangelho de Mateus selecionado para este domingo.

A parábola do semeador é bem conhecida e fala a respeito não apenas da maneira que nós recebemos a Palavra de Jesus, mas também a respeito do que fazemos com ela.

Podemos não entender a mensagem sobre o Reino de Deus; podemos receber com alegria Sua Palavra, mas abandoná-lA nas primeiras perseguições que surgem por conta disso; podemos nos preocupar muito mais com as coisas deste mundo do que com o Reino; mas também podemos receber, entender e dar frutos.

Esaú não fez a última opção: a Palavra que lhe fora dita não tinha raízes fortes e, por isso, no primeiro momento de dificuldade que passou, vemos que espinhos sufocaram o crescimento dela em seu coração. Sentiu fome e, por isso, trocou uma dádiva divina por uma coisa mundana passageira. Ele estabeleceu suas prioridades de modo incorreto e pagou o preço por isso.

O que devemos fazer então caso percebamos que estamos em erro neste sentido e que a Palavra não cresce em nós como deveria?

Devemos fazer como o salmista: pedir por proteção, mas também luz para iluminar nosso caminho através de Sua Palavra e, claro, perdão pela nossa multidão de pecados. Somente assim podemos entregar nossa carne para ser morta e ressuscitada em Cristo e em Espírito.

Não pode haver vergonha em reconhecer o erro e voltar-se Àquele que pode nos perdoar e nos purificar. Nosso orgulho não nos salva: apenas sufoca ainda mais a verdade e nos oferece um bônus ao salário do pecado que é a morte.

Até a próxima postagem!

Leituras:
Gênesis 25.19-34
Salmo 119.105-112 ou Salmo 25
Romanos 8.1-11
Mateus 13.1-9, 18-23

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