Décimo Sexto Domingo Após o Pentecostes (A)

“A queda do Maná” da Escola Portuguesa.

“Pois a vocês foi dado o privilégio de não apenas crer em Cristo, mas também de sofrer por Ele.” (Filipenses 1.29)

 

Há algum tempo, surgiu pelo Facebook uma crítica sutil ao êxodo dos israelitas pelo deserto dizendo que, a pé, teriam levado apenas seis dias para chegar à Terra Prometida e não o tempo registrado no Pentateuco. Desconsiderando o fato de que consistiam em uma comitiva de milhares de pessoas (e não uma sozinha que poderia seguir seu próprio ritmo), uma das razões para esse atraso foi a constante desobediência do povo para com Deus ao longo do caminho.

Uma delas foi a murmuração que descreve a leitura dessa semana. Reclamavam constantemente que não tinham o que comer. Chegam até mesmo a declarar terem saudades dos grilhões egípcios já que, ao menos, tinham comida por perto e conseguiam se alimentar. Mais ou menos como muitas pessoas fazem atualmente ao lembrarem com saudade de regimes políticos de pouca liberdade, mas com rações alimentares (de qualidade duvidosa) garantidas.

Contudo, sendo misericordioso, Deus ouviu essa queixa e lhes forneceu um alimento milagroso e abundante: o maná (o pão feito do orvalho de Deus ao amanhecer) e as codornizes que ficam no acampamento ao anoitecer. O Senhor estabeleceu regras para seguirem quanto a isso (como a confiança em Deus de que o maná apareceria de novo no dia seguinte e que, por isso, não precisariam guardar mais do que o necessário para um dia) e, ainda assim, alguns O desobedeciam.

“Os hebreus recolhendo o maná no deserto.” Pintura de Giovanni Battista Tiepolo.

As leituras dos salmos indicam justamente a necessidade de lembrarmos desses milagres e louvarmos ao Senhor por eles. Lembrarmos não apenas de Suas maravilhas, mas também da necessidade de o obedecermos porque os milagres servem para indicar Seu poder e sua autoridade sobre a Sua criação e sobre nós.

Paulo, em sua carta aos filipenses, afirma que morrer e estar com Cristo é a melhor coisa que poderia desejar, mas que permanecer vivo junto aos seus irmãos também é importante para que todo o corpo, unido, louve ao mesmo Deus. E exorta para que, nesse espírito, exerçamos a cidadania (provavelmente da Cidade de Deus) para que ouçam falar bem de nós e de nossa luta contra a oposição. Afinal de contas, sermos perseguidos e mortos não significa destruição, mas salvação: crer em Cristo é um privilégio assim como sofrer por Ele também é.

Ou seja, os sofrimentos que passamos em meio ao deserto que é nossa caminhada peregrina pela terra são um privilégio para nós tanto quanto o maná enviado por Ele. A forma com que lidamos com o sofrimento serve de testemunho da Cidade Celeste na qual temos morada.

Essa importância da forma com que lidamos com o sofrimento e injustiças aparece também na leitura do Evangelho de Mateus: a parábola dos trabalhadores da vinha. Embora provavelmente seja mais um alerta preventivo aos cristãos judeus, serve também para outras situações de nossas vidas.

“Ajuntando o maná”. Pintura de James Tissot.

Na parábola, o dono da vinha contrata funcionários ao longo de todo o dia. Alguns trabalham manhã e tarde, outros apenas pouco tempo até o final do expediente. Mas todos eles recebem o mesmo salário. Aqueles que começaram o trabalho mais cedo recebem por último e, vendo que os outros receberam a mesma quantidade que eles, murmuram contra seu empregador. E o dono da vinha responde que aquele dinheiro foi o que haviam combinado previamente, nem mais e nem menos.

O trabalho que Deus reservou para cada um de nós pode ser diferente, mas o salário que receberemos ao terminarmos nossa carreira e guardarmos a fé é o mesmo: a salvação. Murmurar quanto à diferença de sofrimentos que temos em nossa peregrinação é desobedecer a justiça e a misericórdia de Deus: é reclamar da falta de comida abundante e termos saudade do tempo em que éramos escravos do pecado.

Que possamos receber as maravilhas que Deus nos oferece, mas suportar pacientemente os sofrimentos que nos forem infligidos porque isso é sinal de salvação e não de destruição. E que, diante de todas as ameaças e tormentos que os cristãos têm sofrido ao redor do mundo atualmente, possamos lembrar que Ele está conosco e que Sua Igreja permanecerá viva eternamente.

Até a próxima postagem!

Leituras:
Êxodo 16.2-15
Salmo 105.1-6, 37-45 ou Salmo 78
Filipenses 1.21-30
Mateus 20.1-16

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