Tanka #5

“Joana d’Arc”. Pintura de Harold Piffard.

Morre a flor de lis…
Donzela da primavera
Da nova Paris.
Tremulai vosso estandarte
Da santa guerreira mártir!

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Planta

Escrito por Thiago de Paula Cruz

Foto de Böhringer Friedrich.

Planta

Após breve descanso
Sob a escura e fria
lápide da terra,
A semente deu lugar
A um fruto a brotar.

Todo o grande peso
Das pedras sobre si própria
Não foram capazes
De impedir seu crescimento
E seu eterno alimento.

Com força divina
Destruiu todo grilhão
Que prendia os seus.
Derrotou enfim a morte;
Nos deu uma nova sorte.

Amanheceu belo
Com o seu cetro dourado
Dado pelo Pai.
Podemos ter esperança
Nesta nossa breve andança.

Da vida a árvore
Foi podada no jardim
Pelos nossos pais,
Mas renasceu imponente
Com a morte da semente.

Semente

Escrito por Thiago de Paula Cruz

“Enterro de Cristo”. Pintura de Carl Heinrich Bloch.

Semente

Anos de preparo
Muito atento e cuidadoso
Foram consumados.
A semente escolhida
Poderia trazer a vida.

Através da morte
Que surge a beleza eterna
Desta primavera.
Em sua pele foi ferida
Pra criar nossa saída.

Através da sede
Que existe em cada um
Que anda na terra
Com seu sumo foi regada
Sozinha, desamparada.

Sob o sol foi posta
À vista de todo mundo
Que quisesse ver.
Ao final deste tormento
Haveria algum alento?

Depositado só;
Sob a fria terra lacrado
Pra não mais voltar?
“Em breve eu vou voltar
P’ras lágrimas enxugar.”

Dívida

Escrito por Thiago de Paula Cruz

Interior da Basílica de Santa Maria del Mar.

Dívida

Um rei que ama a seu povo
Deita sua vida por ele,
Mas sem esquecer daquele
Que não busca Seu renovo.

Não deixe o mal vencer
Em seu orgulho ferino;
Deixe de ser um menino
E o permita morrer.

Pois seu santo sacrifício
É feito por nos amar
Pra enfim nos resgatar
Da paga de nosso ofício.

Aceitar a caridade
Não é também humildade?

Do pó à vida

Escrito por Thiago de Paula Cruz

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“Quarta-feira de Cinzas” de Carl Spitzweg.

Do pó à vida

As cinzas em meu peito
Eu entrego ao Senhor,
Pois não suporto a dor
Do que tenho Lhe feito.

Meu coração defunto
Implora por seu sopro
Que a todos nós faz novo
Espiritual conjunto.

Foi preciso estar só
Diante deste Poder
Que faz vida nascer
De uma porção de pó.

E é nesta terra agreste
Que espero o lar celeste.

Silêncio quebrado

Escrito por Thiago de Paula Cruz

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Xilogravura de Julius Schnorr von Carolsfeld.

Silêncio quebrado

Um manto negro cobre
O mundo em que vivemos
E no escuro tememos
Tudo que não é nobre.

Os vícios congelantes
Correm em nossas veias,
as quais são letais teias
De ações petrificantes.

Deitado sobre a grama
Confortável do pasto,
Luzes tiram o asco
Que teria nesta cama.

Após o anoitecer,
Morreu a esperança;
Sozinho na andança
Sem meta a conhecer.

Porém preste atenção:
Nessa bendita noite
Deixei de lado a foice
Quando vi um clarão.

Música angelical
Atingiu os meus olhos
E todos os meus poros
Temiam o seu final.

Era um santo mandado
A um bem anunciar;
Preciso me alegrar!
Ainda sou amado!

“O silêncio findou,
Pois a Palavra antiga,
Do homem mui amiga,
Afinal encarnou!”

Tornou-se em carne frágil
Pra me direcionar,
Pois a via a andar
Não é estrada fácil.

Levantei apressado;
Pra saudá-lo, corri.
Posso dizer que o vi
Por ouvir o chamado.

A mais alta nobreza
Envolta em simples panos,
Vulnerável a danos,
Porém não à torpeza.

O Rei Sol é nascido,
A Palavra falou
“Pois Eu sou o Eu sou
E não só mais um mito”.